O lado ruim dos rankings de cerveja

Existe uma grande chance de muitos de vocês procurarem ajuda na opinião alheia sobre possíveis decisões a serem tomadas várias vezes durante o dia. “Qual o melhor ceviche da cidade?”, “Será que esse fone de ouvido série ‘Music-PRO’ é bom mesmo?” Com cerveja não é diferente e existem diversas formas e ferramentas de se acharem milhares dessas opiniões. O caso é que essas ferramentas possuem uma série de problemas que podem acabar confundindo e até atrapalhando quem busca ajuda nesses meios. A intenção aqui é tentar entendê-los para podermos evitá-los e, se possível, remediá-los.

Cervejas extremas são as melhores “ranqueadas”

Esse sempre é um assunto que eu trato com todos meus amigos cervejeiros e sempre digo: “Você talvez nunca verá uma Bohemian Pilsner ou uma English Bitter como a melhor cerveja do mundo, por exemplo” e essa é provavelmente a maior causa da desconfiança nos rankings de cervejas: a previsibilidade de quais estilos estão como primeiros colocados nessas listas. Essa é uma ótima notícia para você que adora cervejas extremas como Double IPA ou Imperial Stout, pois esses estilos dominam os rankings de cervejas.

Do ‘Top 50” das “Melhores do Mundo” no site Ratebeer (12/04/2016), 39 delas são Imperial IPAs ou Imperial Stouts. As outras 11, de acordo com os estilos do site, são:

 – Westvleteren 12 (XII) – Abt/Quadrupel
 – 3 Fontainen Zenne y Frontera – Lambic Style  Gueuze
 – Hill Farmstead Ann – Saison
10ª – Rochefort 10 – Abt/Quadrupel
18ª – Kormoran Imperium Prunum – Baltic Porter
27ª – Westvleteren Extra 8 – Belgian Strong Ale
37ª – Struise Pannepot – Belgian Strong Ale
43ª – Lost Abbey Cable Car – Sour/Wild Ale
44ª – Cantillon Blåbær Lambik – Lambic Style – Fruit
45ª – 3 Fonteinen Hommage – Lambic Style – Fruit
48ª – Cantillon Soleil de Minuit – Lambic Style – Fruit

Alguns podem até dizem que se estes estilos dominam é porque, simplesmente, eles são os melhores. Aí vem outra coisa que sempre digo: “mas você dizer que um estilo é melhor que o outro não faz muito sentido”. Vamos pegar como base o Guia de estilos do BJCP. Nele existem mais de 120 estilos únicos, com origens diferentes, parâmetros diferentes e características organolépticas ou sensoriais diferentes e ainda assim algumas pessoas comparam estilos, ao meu ver, injustamente. E isso se repete em outros rankings como no do aplicativo Untappd ou no nacional Brejas.

Aí está uma grande diferença entre “Ranlings de Cervejas” e “Concursos de Cerveja”, nos quais as cervejas competem com outras que estão dentro de seu mesmo estilo.

Se pegarmos o último Concurso Brasileiro de Cervejas (2016), além dos prêmios por estilo eles definem um pódio de “Best of Show“, no qual eles consideram a pontuação geral desses rótulos dentro dos parâmetros de seus estilos, ou seja, consideram o quão melhor e dentro do estilo elas estão. Segue:

 Maniba Red “Meth” – Belgian Flanders – Novo Hamburgo/RS
 RedCor Ryequeoparta – Rye Beer (no caso uma Black Rye IPA) – produzida na Cervejaria Araucária, Maringá/PR
 Urwald Dortmunder Export  – Dortmund Export –  São Vendelino/RS

Não existe um guia de como criticar e classificar

Hoje em dia todo mundo tem o poder de dar opiniões contundentes com pouca informação, mas suficiente para apoiar esses argumentos. Os rankings normalmente são colaborativos e os usuários têm uma liberdade considerável para falar da forma que eles querem. Isso é muito legal, pois deixa as avaliações mais pessoais, mas também gera um problema… Alguns simplesmente colocam “Cerveja tem cheiro de peido! Dou 1 Estrela” e acabam por não agregar nada nem ao site, nem a quem está buscando ajuda para tomar alguma decisão ou coisa do tipo. Mas ainda é pior quando falam algo como “Puta cerveja azeda! Horrível! Nota: 1,5” quando o cara acaba de beber uma Gueuze.

Acontece que esse tipo de comentário é bem fácil de ignorar, basta ver a linguagem e falta de características detalhadas sobre a cerveja, mas ainda assim a nota no topo da página vai ficar devendo e sabemos que essa nota é bem mais influente do que alguns cervejeiros podem admitir…

Servem mais como ferramenta de venda do que para pesquisa

Aqui é onde os “Ranking Sites” tem muito em comum. Quem não gosta de reservar uma uma mesa num restaurante 5 estrelas ou colocar pra rodar um filme com nota 9.8/10 no IMDB? É por este mesmo motivo que é fácil para um vendedor ou representante ou até mesmo um distribuidor (quando pega um varejista mal-informado) vender uma cerveja com nota 99/100 no Ratebeer. Normalmente para pessoas que nem sabiam da existência desses sites.

Nenhum problema em uma nota alta numa cerveja boa, mas é como falei nos outros tópicos essa nota pode ter sérias considerações a serem feitas antes de ser divulgada. A verdade é que esses comentários tem uma representatividade considerável para o mercado. Se você está de frente para a gôndola de uma loja especializada, com seus 500 e poucos rótulos e não sabe o que escolher provavelmente você ira puxar seu smartphone e conferir a nota daquelas cervejas nos rankings disponíveis em busca de recomendações e é complicado a pessoa decidir quando as classificações mais positivas pendem para somente 3% dos estilos ali encontrados.

Evite “textões”

Você está procurando alguma informação válida e encontra um review com 400 palavras (1/3 do tamanho dessa postagem). Não há degustação que não possa ser descrita em poucas linhas. Quando você escreve em um blog e deve escrever sobre a história da cerveja, do seu criador e da cervejaria a contagem de palavras passa desse número, mas quando o seu dever é só listar as características a proposta é ser sucinto, pois existem outras dezenas de comentários sobre a mesma cerveja e o seu não é mais importante que os outros para tomar o tempo do leitor. Portanto, leitor, evite “textões”.

Avaliações não envelhecem bem…

Imagine que você só tem uns 50 rótulos registrados e que você pegou uma cerveja relativamente complexa para avaliar nesse meio-tempo e que agora, você passando dos 500 exemplares degustados vai reler essa avaliação… Eu já o fiz e é uma decepção. Então, por isso as avaliações são dispostas nesses sites de forma cronológica, mostrando sempre a mais recente. Então confira a data dos comentários e pondere sua maturidade na época.

O grande lado bom dos rankings de cerveja online

Tudo que eu falei até agora serve mais como um alerta para quem baseia sua vida cervejeira em comentários e notas em listas de classificação de cervejas. De resto só vejo coisas boas em relação a esse verdadeiro “Serviço de Utilidade Cervejeira” prestado por estas plataformas. Então, nem pense em deletar suas contas ou seus aplicativos ao ler esse texto. Se você está levando cerveja a sério pode descrever todas suas cervejas e deixar a avaliação por lá para quando você precisar consultar.

Esses sites também ajudam a mostrar o que está acontecendo pelo mundo. O que foi lançado, o que pode ser melhor em determinada região do país e tudo isso pode te ajudar até num possível roteiro de viagens.

Infelizmente é muito improvável que o modo de avaliar nesse tipo de plataforma (seja carros, hoteis, restaurantes…) vá mudar e você sinta que viver nessa época onde todo mundo tem uma opinião forte sobre qualquer assunto ou produto. Mas isso mostra que o público está ficando cada vez mais apaixonado e querendo ou não uma nota alta nesses rankings é importante para os cervejeiros que dedicam bastante tempo em uma receita buscando sua plenitude.

Então temos mais que agradecer do que reclamar, claramente.
Até mais! ;D

PS: Quer saber como fabricar sua própria cerveja? A gente tem algumas dicas legais no blog, sabia? Mas se tiver afim de ir além, dá uma olhada no que o pessoal da Universidade da Cerveja tem de conteúdo nessa sequencia de vídeos gratuitos. Eles disponibilizaram um mini-curso free que vale a pena checar.

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