Beba menos. Beba melhor.

Olá queridos seguidores, hoje no Lupulento vamos de falar de uma coisa séria muito séria: o consumo irresponsável de álcool. Recentemente me deparei com o seguinte post do Papo de Homem, onde o autor, Guilherme Nascimento Valadares, constrói uma reflexão muito boa sobre a nossa cultura de consumo exacerbado de álcool, a partir da triste notícia do falecimento de um jovem, da minha idade, após consumir 30 doses de vodka em uma festa universitária open bar. Na mesma festa, houveram outros cinco atendimentos à jovens que beberam muito, onde duas garotas tiveram que ser mantidas entubadas em UTI.

Não é possível que noticias como essas não nos façam pensar no tipo consumo que nós jovens fazemos do álcool. Se pararmos para pensar, nossa sociedade cultiva uma cultura muito irresponsável com a bebida. Sempre temos a presença do rapaz fodão, que consegue tomar uma garrafa inteira de cachaça (ou vodka, ou whisky, você escolhe) e continuar de pé sem passar mal. As vezes, me parece, que quanto mais a pessoa consumir, maior o seu status dela dentro de um ciclo social, como se a pessoa se tornasse algum tipo de semi-deus etílico que deve ser respeitado pela sua alta resistência. Tais costumes como esses tem um reflexo gigantesco nos assustadores números de morte envolvendo álcool e automóvel, uma combinação totalmente imprudente, principalmente quando o consumo da bebida é desenfreado.

Não estou aqui com um papo de tio chato quer que você largue a bebida por completo ou que só beba trancado em casa, até porque a bebida é uma forma de relaxamento, de desopilar e de fugir da rotina, algo sempre merecido depois de uma semana intensa de trabalhos e do stress dos grandes centros urbanos. Vos escrevo aqui só para criar uma reflexão desse costume brasileiro e sobre o que o movimento da cerveja artesanal prega sobre o consumo de bebidas alcoólicas, com isso, trarei aqui um pouco da minha história:

523668_435236486489971_796076697_n

Em 2010 ingressei no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará e com isso, muitas comemorações regadas a bebidas. Meus primeiros anos de faculdade provavelmente foram os que mais consumi álcool, claro, estava numa fase nova da minha vida, novos amigos, novas festas, calouradas, Encontros Estudantis em diversas cidades do Brasil, isso sem contar que o curso de Arquitetura da UFC é sediado num campus dentro de um bairro extremamente cultural e boêmio de Fortaleza, o Benfica. Foi lá onde comecei a tomar cerveja, em alguns dos inúmeros bares do bairro. Em pouco tempo vi minha resistência ao álcool aumentar drasticamente, chegando a quase me comparar com alguns amigos semi-deuses do álcool, que eu comentei antes.

Me apaixonei pela cerveja, uma bebida leve e refrescante e que podia beber vários copos e sentir os efeitos aos poucos. Frequentando algumas baladas de Fortaleza, acabei conhecendo a Heineken, primeira cerveja puro malte que tomei e mudou totalmente minha ideia sobre a cerveja. Passei a pesquisar um pouco mais porque a Heineken era melhor que Skol ou Brahma e em alguns cliques descobri uma infinidade de estilos diferentes, que eu não fazia a mínima ideia que eram vendidos no Brasil. Pouco tempo depois, em meados de 2011, fui para um bar com uns amigos do colégio e finalmente provei minha primeira cerveja de trigo, a Eisenbahn Weizenbier. Me lembro como se fosse ontem minhas papilas gustativas enlouquecendo e meu cérebro sem entender que aquilo que bebia era cerveja, daí pra frente iniciou-se uma prazerosa caminhada no mundo das cervejas artesanais. Comecei a pesquisar mais sobre o assunto, comecei a ler o blog cearense Cervas Clube e aprender cada vez um pouquinho a mais sobre nossa querida bebida e, sempre que a grana deixava, comprava uma cerveja alemã ou brasileira diferente, mas ainda assim tinha medo de gastar dinheiro. Não me entrava na cabeça pagar 20 reais em uma única garrafa de cerveja, pois ainda não tinha noção das grandes diferenças entre as cervejas, tudo que queria era sair do Brasil para um país tradicional de cervejas.

4-Amazing-Similarities-with-Craft-Beer-and-Quality-Background-Checks

Dito e feito. Em 2013 embarquei para estudar para Manchester, Inglaterra, e no meu primeiro carrinho de supermercado comprei algumas garrafas da famosa London Pride e um copo de pint adequado para bebê-la. Mais uma vez, a cerveja fazendo festa com meu paladar. Esse ano morando na Inglaterra me fez descobrir uma infinidade de sabores e complexidades nas cervejas. Descobri as English Bitters, as Pale Ales, as India Pale Ales, as Stouts, as Sour Ales… Viajei para a Bélgica e me deliciei com uma gama incrível de WitbiersDubbels, TripelsQuadrupels, conheci as grandes cervejarias Trapistas e tive meus primeiros contatos com a tradição da cervejaria Cantillon. Nesse meio tempo, um amigo me chamou para escrever para o Lupulento sobre minhas experiências no Velho Continente, algo que só me fez pesquisar e me apaixonar ainda mais pela cerveja.

Na Europa tive a experiência de que a cerveja não é simplesmente uma bebida, ela faz parte da cultura de um povo, faz parte da mesa de jantar das famílias e é uma parte da culinária e da gastronomia de uma cultura inteira, basta ir para a Alemanha, Bélgica ou Reino Unido e ver que seus principais pratos típicos são acompanhados de uma cerveja local. Vai dizer que existe um acompanhamento melhor pra uma Steak and Ale Pie (prato típico inglês, uma torta de carne com um molho à base de cerveja) do que a própria Ale que compôs a receita, ou uma Summer Ale pra acompanhar um pouco de Fish n’ Chips durante um dos raros dias ensolarados da Grã-Bretanha?

E o que eu mudei desde que voltei de Manchester em 2014 até o presente momento? Toda essa experiência com a cerveja artesanal e a cultura cervejeira de um modo geral, me fez repensar como eu tratava meu consumo de álcool anteriormente. Mensalmente eu gastava uma quantidade X de reais com caixas de cervejas de massa e outros destilados sem qualidade e bebia de uma forma, nem sempre exagerada, mas não saudável para meu corpo. Hoje em dia gasto exatamente meus X reais mensais (as vezes um pouco mais, não vou mentir) porém compro produtos de qualidade, feitos sem milho transgênico, sem aditivos, anti-oxidantes, estabilizantes e conservantes. Em um fim de semana bebo uma quantidade bem menor do que bebia anteriormente, mas consumo bebidas de uma qualidade infinitamente superior e sinto que a minha relação com o álcool melhorou bastante. Ainda frequento festas, claro, ainda sou jovem e sair para festas sempre foi um programa que gostei muito.

E outra coisa, virei produtor caseiro de cerveja, o que me fez ter uma compreensão muito melhor do que estou bebendo e de quebra me faz economizar um pouco nos meus gastos, mesmo tento que comprar insumos para produzir. A leva da minha última IPA deve ter saído algo em torno de 9 reais o litro (custo de produção e vale lembrar que geralmente pagamos uns 20 reais numa garrafa de uma boa IPA no mercado) e tenho algumas garrafas ainda hoje. No mês que envasei a IPA acho que gastei somente 50 reais comprando bebidas no mês inteiro.

Beba menos, beba melhor.

Esse post não pode ter sido como um dos nossos posts usuais, trazendo novidades do mundo cervejeiros ou alguma dica interessante sobre homebrew, mas senti a vontade e a necessidade, após esses últimos acontecimentos, de trazer essa questão do consumo de álcool à mesa. O movimento craft que nós do Lupulento abraçamos a bandeira vai contra esse tipo de cultura da embriagues que tanto assola nosso país.

Vamos cuidar da nossa saúde e do nosso corpo galerinha! Abracem essa ideia também e vejam como seus corpos agradecem. Conte-nos sua história aqui nos comentários.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *